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Entrevista com Claudia Fandi,
http://www.seia.ba.gov.br/
maio/2007
O IESB fortaleceu a capacidade de intervenção da sociedade
Em 1994, um grupo de ambientalistas, estudantes e pesquisadores se
reuniu na Universidade Estadual de Santa Cruz, com o objetivo de
discutir a questão ambiental no Sul da Bahia. Em meio a este debate,
surgiu a idéia de criar uma organização local e não governamental
com o objetivo de aglutinar e institucionalizar algumas das ações e
projetos que já vinham em andamento, bem como o de apoiar e
incentivar novos projetos e iniciativas voltadas para a conservação
e desenvolvimento. Foi assim que, em julho do mesmo ano, foi criado
o Instituto de Estudos Sócio Ambientais do Sul da Bahia, IESB.
Passados 13 anos, há registros de resultados significativos, como a
ampliação das áreas particulares protegidas no estado e o
estabelecimento de uma cadeia de produção agroflorestal orgânica, no
Sul da Bahia. Mais importante: a trajetória e a forma de atuação do
IESB fortaleceu a capacidade de intervenção da sociedade civil
organizada junto aos formuladores das políticas públicas, ao
incentivar e apoiar o surgimento de outras organizações, a exemplo
da Preserva - Associação dos Proprietários de Reservas
Particulares da Bahia e Sergipe. Contou ainda com o apoio à criação
de organizações com foco na produção agrícola sustentável, como a
Cabruca - Cooperativa dos Produtores Orgânicos do Sul da Bahia.
A atuação do instituto ao longo destes anos aconteceu de forma
bastante ousada e inovadora, envolvendo tanto ações de pesquisa na
área de Biologia da Conservação, quanto ações voltadas para o
Desenvolvimento Rural. No amplo leque de ações e eixos temáticos
desenvolvidos pelo IESB estas duas áreas se complementam, sendo
bastante ilustrativo o fato de ambas terem obtido reconhecimento,
através do Prêmio Bahia Ambiental, concedido pelo Governo do
Estado, nos anos de 2003 e 2004.
Comemorando os 13 anos de criação, o instituto também recebeu o
Prêmio Muriqui 2004, concedido pelo Conselho Nacional da Reserva
da Biosfera da Mata Atlântica, em reconhecimento aos esforços
orientados para a defesa deste bioma. O êxito da trajetória do IESB
deve-se à conjunção de diversos aspectos, contudo, dois deles
merecem ser destacados: a capacidade da sua equipe, sempre com uma
formidável dedicação na condução das atividades e, de grande
importância, a extensa rede de parceiros estabelecida ao longo dos
anos.
Convidada para palestrar no Dia Internacional das Mulheres, no
Centro de Recursos Ambientais, CRA, a bióloga Ana Cláudia Fandi,
especialista em Educação Ambiental e pesquisadora do IESB, contou à
jornalista Nádya Argôlo, da Assessoria de Comunicação do CRA, sobre
o trabalho com grupos de mulheres no Projeto Corredor Ecológico
Una/Lontras, no Sul do Estado. E é a ele que vamos nos ater
nessa entrevista para o Portal Seia.
Nádya Argôlo - Como é o seu trabalho com o grupo de mulheres, no
projeto Corredor Ecológico Una/ Lontras, no Sul do Estado?
Claudia Fandi – Nosso
trabalho tem como principal objetivo envolver as mulheres nas
questões sócio-ambientais da comunidade de forma pro ativa.
Organizando-as no sentido de inseri-las na cadeia produtiva com
atividades ambientalmente sustentáveis, trabalhando conjuntamente,
em processos de desenvolvimento pessoal visando empoderá-las para
desencadear atividades de educação ambiental construídos e
coordenados por elas.
NA – E a escolha da área, como se chegou especificamente a este
corredor? E ao chegar, como se diz na Bahia, no arrear das malas
como foram as reações das mulheres, de desconfiança?
CF – O IESB vem
concentrado seus esforços para contribuir com a implementação do
Corredor Central da Mata Atlântica, a área onde estamos trabalhando,
a região Una-Serra das Lontras, é fundamental para a consolidação
deste Corredor. O projeto que desenvolvemos, que conta com apoio da
União Européia e PDA Mata Atlântica, envolve ações relacionadas a
áreas protegidas, monitoramento ambiental, agricultura orgânica,
políticas públicas, além do envolvimento das mulheres. Em relação às
mulheres, no início reagiram com desconfiança, depois com
curiosidade em saber mais sobre o trabalho, agora reagem com
bastante interesse pelo projeto. Temos expectativas de envolver mais
mulheres no grupo. Esta ação que irei relatar acontece em uma
comunidade denominada Família Unida,situada no Corredor Una-Lontras.
NA - Você falou que as melhores conversas, as trocas de
idéias, acontecem na cozinha. Narre um pouco dessa experiência.
CF- Para iniciarmos o trabalho com as mulheres era necessário
conhecer o cotidiano e a realidade na qual estão inseridas, bem como
estabelecer uma relação de confiança com a equipe técnica. Então,
percebemos que a cozinha era um excelente espaço de troca e de
discussões, onde ficávamos a vontade para conversar sobre a vivência
e experiência de cada uma. Esses momentos foram, e ainda são,
extremamente relevantes para a construção das atividades que
desenvolvemos nas oficinas para a formação do grupo e elaboração do
plano de trabalho.
NA – Todo mundo reage às mudanças... Como foi para as mulheres
incutirem nas cabeças dos seus maridos e companheiros as mudanças,
ou seja, que elas teriam um tempo, delas, para aprenderem novas
coisas, principalmente à educação ambiental?
CF – O trabalho na comunidade foi construído com os atores da
própria comunidade, ou seja, partimos de um diagnóstico das relações
sociais estabelecidas entre os comunitários e a partir deste
diagnóstico construímos a nossa parceria. As ações estabelecidas
foram desenhadas com base nas necessidades e interesses que o grupo
levantou. Dentre as necessidades levantadas estava uma ação que
envolvesse os jovens e as crianças, então, aproveitamos essa entrada
e sugerimos o envolvimento das mulheres argumentando a importância e
o papel fundamental que elas desenvolvem na educação dos filhos.
Desta forma, construímos uma relação de co-responsabilidade entre as
ações desenvolvidas na comunidade com homens, mulheres, equipe
técnica, o que facilita o entendimento do trabalho que as mulheres
vem desenvolvendo.
NA - Como elas encaram as questões ambientais na Mata Atlântica?
CF - São sensíveis a questão
ambiental, sentem que os impactos causados ao meio ambiente reflete
diretamente na vida da comunidade. No entanto, é necessário o
desenvolvimento de atividades que potencializem esses sentimentos e
que estimulem ações coletivas e propositivas sobre a questão
ambiental local. Com o desenvolvimento deste projeto na comunidade
esperamos contribuir para a participação mais efetiva da mulher
neste tema.
NA- Fala-se hoje muito em manejo sustentável de florestas. A
retirada de madeiras nobres, das espécies que levam mais de 30 anos
para se recompor, é uma prática ecologicamente correta, em sua
opinião?
CF- Na Mata Atlântica, onde os remanescentes estão muito
fragmentados e dispersos, o extrativismo madeireiro não faz mais
sentido e nem encontra fundamentação técnica. Inclusive, hoje está
proibido por determinação legal.
NA - Você falou dos painéis de interesse e de mudanças? Como foi ou
está sendo o caminhar dessas ações? Os resultados estão dentro das
expectativas?
CF – Para construir nossa parceria com as mulheres estamos
realizando oficinas que tem como objetivo elaborar um plano de
trabalho. Essas oficinas são divididas em três momentos, o primeiro
é voltado para o despertar das fortalezas e fraquezas das mulheres,
nesta parte são elaboradas atividades para o autoconhecimento,
reflexão e empoderamento - esse momento é extremamente importante
para entender as habilidades e potencialidades do grupo. Os outros
dois momentos são dedicados para delinear as ações que o grupo
deseja desenvolver, para isso elaboramos dois painéis o primeiro
contem os interesses que o grupo tem em estar trabalhando junto e o
segundo as mudanças que desejam para a comunidade. Com os painéis já
traçamos passos importantes para o trabalho, como os objetivos do
grupo que são: contribuir com a geração de renda da família;
realizar ações para a melhoria da qualidade de vida da comunidade;
envolver a escola e as professoras nas ações do grupo e continuar o
trabalho de desenvolvimento pessoal.
Definimos também três ações iniciais para atingir os objetivos,
são elas: a construção de uma horta comunitária e orgânica; a
confecção de sabão caseiro para venda e consumo e a implementação de
um viveiro de mudas para a recuperação de áreas degradadas .
As oficinas proporcionam que a ação seja coerente com as
possibilidades de execução do grupo, com isso esperamos que os
resultados sejam mais concretos e que tenham sustentabilidade .
Nesses momentos aproveitamos para discutir aspectos organizativos
do grupo, fundamentais para a continuidade do trabalho.
As atividades definidas pelas mulheres têm acompanhamento da equipe
do IESB. Alguns cursos de capacitação já foram ministrados na
comunidade, como adubação orgânica, hortas comunitárias, manejo do
cacau e clonagem do cacau. Outros temas serão trabalhados a partir
das necessidades que foram levantadas no diagnóstico inicial feito
na comunidade
NA- Como foi envolver a escola e consequentemente, os filhos,
nesse projeto?
CF- Envolver a escola no trabalho é um dos objetivos definidos pelas
mulheres, existe uma grande preocupação do grupo em estimular o tema
meio ambiente nas aulas. Essa ação está bem no inicio, mas algumas
atividades já estão sendo executadas como, palestras sobre
biodiversidade local ministrada por pesquisadores do IESB que atuam
na região. Outra atividade que as mulheres estão construindo é a
implementação de um Viveiro de mudas nativas para recuperar as áreas
de proteção permanente da comunidade que pretendem desenvolver em
parceria com a escola.
NA - O que você já pode apontar como resultados?
CF - O trabalho com as mulheres tem despertado o interesse para a
produção orgânica, que além de contribuir com a conservação do meio
ambiente contribui com a saúde dos agricultores. As mulheres já
estão comercializando os produtos da horta, que além de enriquecerem
a alimentação da família tem contribuído com a renda uma vez que
deixam de comprar os produtos, já que cultivam na horta. O mesmo
acontece com a produção do sabão caseiro.
Com o desenvolvimento do trabalho estamos discutindo e contribuindo
para a averbação da Reserva Legal das fazendas onde atuamos, o que
para a conservação dos remanescentes de Mata e conexão dos
fragmentos é fundamental.
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